Nesta entrevista para a DNDi, Mario Moreira, presidente da Fiocruz, fala sobre os desafios para enfrentar as doenças negligenciadas no Brasil e sobre o papel da ciência, da inovação e da cooperação internacional na construção de respostas mais equitativas.
1. O Brasil ainda enfrenta grandes desafios relacionados às doenças negligenciadas. Na sua visão, quais são os mais urgentes?
Na minha visão, é urgente romper o ciclo histórico que associa essas doenças à invisibilidade. Na Fiocruz, utilizamos cada vez mais o conceito de doenças socialmente determinadas, que reconhece que certas enfermidades persistem porque estão associadas a condições de pobreza, insegurança alimentar, moradia precária, falta de saneamento, vulnerabilidade ambiental e dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Além disso, entendemos que o objetivo não é apenas desenvolver novas ferramentas, mas garantir que elas cheguem às populações que mais necessitam delas e contribuam para a redução das iniquidades em saúde.
O desafio, nesse contexto, é construir sistemas de saúde e um ecossistema global de inovação capazes de responder às necessidades das populações historicamente excluídas dos benefícios da ciência, da tecnologia e do desenvolvimento, promovendo saúde como um direito e como um componente essencial da justiça social.
2. Que mudanças seriam fundamentais em termos de políticas públicas e financiamento para acelerar o enfrentamento dessas doenças?
A aceleração do enfrentamento a estas condições exige que elas sejam tratadas como prioridade de desenvolvimento e equidade, não apenas como agenda setorial da saúde. Isso requer políticas públicas capazes de atuar sobre os determinantes sociais dessas doenças e também sobre as lacunas históricas de inovação e acesso que afetam as populações mais vulnerabilizadas.
Do ponto de vista do financiamento, é fundamental avançar para mecanismos mais sustentáveis e previsíveis, capazes de garantir investimentos de longo prazo em pesquisa, desenvolvimento e acesso. Também é necessário fortalecer modelos de inovação orientados pelas necessidades de saúde pública e realizar a articulação entre pesquisa, vigilância e sistemas de saúde. Outro fator indispensável é o investimento na modernização da infraestrutura de pesquisa e produção, bem como na formação e retenção de recursos humanos qualificados.
Na Fiocruz, entendemos que a inovação deve estar orientada pelo acesso. O sucesso de uma nova tecnologia não pode ser medido apenas pelo seu desenvolvimento, mas pela sua capacidade de chegar às populações que mais precisam dela e contribuir para a redução das desigualdades em saúde.
3. A pandemia evidenciou a dependência de muitos países em relação à importação de vacinas, insumos e diagnósticos. Quais são hoje os principais gargalos para ampliar a capacidade de produção local dessas tecnologias em países de renda média e baixa? O que precisa ser feito?
No contexto da América Latina e Caribe, os gargalos concentram-se especialmente na dependência de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) e insumos críticos importados, nas limitações de infraestrutura produtiva, na insuficiente harmonização regulatória, nas disparidades tecnológicas, nas restrições de financiamento e nas barreiras de coordenação entre países, instituições e atores produtivos.
O primeiro gargalo, portanto, é tecnológico e produtivo. Muitos países avançaram em etapas como formulação, envase e acabamento, mas continuam dependentes das fases mais intensivas em conhecimento. Outro ponto a destacar é o acesso a insumos críticos: a agenda de produção local também precisa incluir fatores como o desenvolvimento de fornecedores e a diversificação regional das cadeias de suprimento.
Existem ainda os gargalos regulatórios e econômicos. Países de renda média e baixa muitas vezes têm capacidades regulatórias desiguais, processos pouco harmonizados e dificuldades para reconhecer evidências, registros e certificações entre jurisdições. Isso aumenta custos, alonga prazos e reduz a viabilidade de estratégias regionais de produção.
Sobre o gargalo relacionado aos recursos humanos e à aprendizagem institucional, iniciativas de capacitação, centros regionais de treinamento e mecanismos de cooperação Sul-Sul e Sul-Norte são estratégicos para desenvolver capacidades permanentes de absorção tecnológica, adaptação, inovação e resposta.
4. Em um momento em que a Fiocruz reforça sua estratégia de atuação internacional e de cooperação com parceiros no Sul Global, o cenário de crescente fragmentação geopolítica e aumento de conflitos impõe novos desafios à colaboração entre países e instituições. Como o senhor vê hoje o papel do multilateralismo neste cenário de tensões internacionais?
O atual contexto internacional é marcado por tensões geopolíticas, disputas tecnológicas e fragmentação de cadeias globais de produção. No entanto, os grandes desafios da saúde são transnacionais e não podem ser enfrentados de forma isolada. A experiência da pandemia de Covid-19, por exemplo, evidenciou os riscos da concentração de conhecimento e da cadeia produtiva em poucos países. Quando isso ocorre, nações do Sul Global acabam prejudicadas, ficando no fim da fila para acessar insumos essenciais à defesa da vida.
Esse cenário reforça a importância de fortalecer o multilateralismo não apenas como um espaço de diálogo político, mas como uma plataforma para cooperação científica, tecnológica e produtiva. É essa visão que orienta iniciativas como a Coalizão Global para Produção Local e Regional, Inovação e Acesso Equitativo, promovendo uma agenda voltada ao fortalecimento de capacidades regionais e à redução das assimetrias globais em saúde.
É com base nessa visão que a Fiocruz participa ativamente de diversas iniciativas internacionais convergentes, atuando na coordenação e articulação dessas agendas, exercendo, por exemplo, a presidência do Conselho da Rede Pasteur e mantendo colaboração contínua com a Organização Mundial da Saúde. Nesse contexto, desempenha um papel estratégico na promoção do intercâmbio de conhecimentos e no fortalecimento de parcerias para construir um mundo mais justo, em que a ciência esteja a serviço da vida.
5. A dengue é o primeiro projeto piloto da Coalizão Global para Produção Local e Regional, Inovação e Acesso Equitativo, da qual o Brasil tem a Presidência por dois anos e a Fiocruz é Secretariado-Executivo permanente. Qual foi a estratégia por trás desta decisão?
A dengue exige uma resposta verdadeiramente integrada.
Embora algumas tecnologias já existam, ainda há espaço para aprimoramento e desenvolvimento de novas abordagens para a dengue. Além disso, há lacunas importantes no acesso a vacinas, diagnósticos, terapias e soluções integradas de controle. Existem duas vacinas disponíveis no mercado, mas que podem ter sua capacidade de produção expandida ou outros fornecedores eventualmente passarem a ofertá-las, assim como há espaço para aprimoramento do diagnóstico de dengue e de arboviroses como chikungunya e zika.
A estratégia da Coalizão foi selecionar uma agenda em que fosse possível gerar resultados tangíveis no curto e médio prazo, articulando inovação, produção local e regional e cooperação entre países.
6. Além da dengue, quais outras doenças deveriam estar no centro dessa agenda nos próximos anos?
A Coalizão trabalha com uma visão ampla de doenças e populações negligenciadas como eixo central. Isso significa enfrentá-las sob duas perspectivas: como perpetuadoras de desigualdades, já que grupos marginalizados são os mais afetados e carecem de acesso universal à saúde; e como uma área historicamente desincentivada e não priorizada no campo da inovação e produção de terapias, vacinas e diagnósticos.
Várias doenças negligenciadas tiveram sua prevalência expandida recentemente devido às mudanças climáticas, com um impacto significativo na saúde pública de diversos países, como é o caso da dengue.
Considerando a atual conjuntura global e a urgência por melhores ferramentas de saúde em larga escala, há grande probabilidade de que doenças relacionadas ao clima continuem entre as próximas prioridades de chamadas de propostas da Coalizão.
7. Como garantir que iniciativas como a Coalizão não fiquem apenas no nível das intenções, mas gerem resultados concretos?
A Coalizão estrutura-se em uma rede de cooperação que une governos, instituições de pesquisa, produtores públicos e privados, organismos internacionais e financiadores em torno de entregas concretas e alinhadas às necessidades dos países. Para garantir resultados concretos, é preciso transformar compromissos políticos em planos de trabalho com metas claras, cronogramas definidos, mecanismos de acompanhamento e uma cooperação contínua entre os diferentes atores envolvidos.
Outro elemento essencial é garantir que as iniciativas da Coalizão estejam diretamente vinculadas às prioridades e às decisões dos próprios países e instituições responsáveis pela implementação das políticas de saúde que utilizam esses produtos.
A composição do Comitê Diretivo e do Comitê Consultivo é, neste contexto, especialmente importante para fortalecer a legitimidade, a coordenação e a capacidade de transformação da Coalizão. Enquanto o primeiro reúne países com papel ativo na definição das prioridades e na condução política da iniciativa, o outro agrega organizações internacionais estratégicas e parceiros técnicos capazes de apoiar a implementação, cooperação e sustentabilidade das ações.
O engajamento dos países e organizações que compõem a Coalizão é o que assegura o monitoramento dos avanços e o impacto real da iniciativa, nos próximos anos, para as populações e nações em maior situação de vulnerabilidade. A presença do Brasil na Presidência, somada à atuação da Fiocruz na Secretaria-Executiva permanente, consolida o compromisso de dar continuidade a essa agenda.