
Neste mês em que celebramos o Dia do Médico, conversamos com a infectologista Dra. Conceição Pedroso, professora da Universidade Federal do Maranhão e médica do Hospital Presidente Vargas em São Luís (MA), sobre os desafios e os avanços no enfrentamento às doenças negligenciadas entre a população maranhense. Nesta entrevista, a Dra. Conceição compartilha sua trajetória dedicada ao cuidado e à pesquisa dessas enfermidades e traça um panorama dos impactos dessas doenças na vida das populações mais vulneráveis. A especialista também ressalta a importância da pesquisa científica, da formação de profissionais de saúde e do fortalecimento de políticas públicas para ampliar o acesso ao diagnóstico e aos tratamentos.
Como as doenças negligenciadas despertaram o seu interesse?
O meu interesse pelas doenças infecciosas começou na faculdade, mas eu sempre tive muito carinho e apreço por trabalhar com as pessoas em maior situação de vulnerabilidade – e as doenças tropicais estão nesse campo da maior vulnerabilidade. O meu desejo inicial era trabalhar com os Médicos Sem Fronteiras, e aí descobri que, na verdade, a medicina sem fronteiras que precisava de ajuda era aqui no Maranhão. Hoje coordeno um projeto de extensão na Baixada Maranhense, com base na cidade de Pinheiro, onde vou a cada dois meses para atender os pacientes. Lá me deparo com todos os tipos de doenças negligenciadas.
Quais são as doenças negligenciadas mais comuns no Maranhão?
Aqui atendemos casos de leishmaniose tegumentar americana, leishmaniose visceral, esporotricose, cromoblastomicose, micetoma, doença de Jorge Lobo (também conhecida como lobomicose ou lacaziose), doença de Chagas… São várias.
Qual o perfil de pessoas que procuram o hospital para tratar essas doenças?
A maioria dos pacientes que procura o Hospital Getúlio Vargas são pessoas que vêm do interior do estado ou do interior da ilha, onde a estrutura de atendimento de saúde é muito precária. Eles são encaminhados ou procuram o hospital por conta própria, porque o seu problema de saúde não foi resolvido onde vivem.
Em geral são pessoas de baixa renda, com um perfil socioeconômico muito baixo. Pessoas que trabalham no campo, na lavoura, pescadores. Mas algumas doenças já saem desse circuito e avançam para a área urbana, como acontece com a leishmaniose visceral, que encontramos em qualquer lugar de São Luís, e com a esporotricose, que começa em São Luís. Essas doenças não respeitam limites sociais ou econômicos. Toda a população está vulnerável a elas.
Muitos pacientes contam histórias de dificuldade no diagnóstico: vão de um lugar a outro até encontrar ajuda. Falta informação?
Falta! Falta informação inclusive entre os profissionais da área da saúde. Em alguns locais, chegar ao atendimento médico nem sempre é tão difícil, mas, para chegar ao diagnóstico correto, o paciente perambula. Por exemplo, tenho pacientes que chegam até mim com esporotricose, uma doença relativamente aguda, que exige um diagnóstico rápido para que as lesões não piorem. Já recebi pacientes três meses depois do início da lesão. Eles procuraram atendimento médico logo que perceberam a lesão, mas foram diagnosticados inicialmente com infecção bacteriana, tomaram mais de um antibiótico em dois, três ciclos e não melhoraram. Até que alguém disse “procure um infectologista” e só então a pessoa foi diagnosticada e tratada corretamente.
E qual o principal desafio para o tratamento?
É o tempo de tratamento. Na maioria das doenças negligenciadas, principalmente nas fúngicas, o tratamento é longo, muito longo. O paciente precisa ter paciência, porque o tratamento demora muito tempo. Na leishmaniose, visceral ou tegumentar, o tratamento tem um tempo determinado: vou tratar, e ao final não sabemos se houve cura ou não. Mas nas doenças fúngicas negligenciadas o tratamento é longo: sabemos que ele vai ter melhora e que poderá haver cura, mas isso pode demorar talvez anos.
Que tipo de tratamento seria ideal para atender essas populações com pouco acesso aos serviços de saúde?
O tratamento ideal para esses pacientes seria aquele administrado por via oral, sem necessidade de medicamentos por via venosa ou intramuscular, porque já sabemos que o acesso vai ser mais difícil. Essa é uma das dificuldades, por exemplo, na leishmaniose: o tratamento com Glucantime é intramuscular ou venoso, assim como com a anfotericina B. Agora aparece um tratamento com miltefosina, mas ainda precisamos ter atenção, porque pode aparecer alguma toxicidade. No caso do Glucantime, hoje já temos a opção da aplicação intralesional, mas o paciente precisa vir ao serviço ou alguém precisa aplicar nele. Isso já facilitou muito: ele vem uma vez a cada 15 dias, e antes tinha que tomar injeção todos os dias. Mas vemos que ainda é preciso melhorar a oferta terapêutica para esse paciente, para que ele consiga aderir e tratar até a cicatrização completa das lesões.