Jornal da USP/10/2026
Um grupo de pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP obteve uma nova estratégia para combater a leishmaniose cutânea, doença negligenciada que ainda depende de tratamentos antigos, tóxicos e de eficácia variável. O trabalho, publicado no Journal of Medicinal Chemistry, identifica os primeiros inibidores covalentes (que formam ligação química de longa duração) de uma enzima essencial à sobrevivência do parasita Leishmania braziliensis, um dos principais causadores da doença no Brasil e em outros países das Américas.
Primeira autora do artigo, a pesquisadora Thamires Quadros Froes teve participação central na descoberta, resultado de seu estágio de pós-doutorado realizado junto ao Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Fármacos e Fragmentos Moleculares (Craft) da FCFRP, sob coordenação da professora Maria Cristina Nonato e do professor Flávio da Silva Emery.
Conta a professora Maria Cristina que o Craft vem estudando a enzima do parasita, a diidroorotato desidrogenase (DHODH), e que o objetivo da equipe agora foi investigar uma nova forma de bloquear essa enzima, que é responsável por uma etapa fundamental da produção de pirimidinas — componentes indispensáveis para a formação do DNA e do RNA. “Como o parasita precisa produzir DNA e RNA para crescer, se dividir e manter suas funções celulares, a atividade dessa enzima é muito importante para sua sobrevivência e multiplicação. Quando bloqueamos a DHODH, interferimos nessa rota metabólica fundamental”, explica a professora.
Para a inibição dessa enzima essencial à vida do parasita, os pesquisadores desenvolveram derivados do ácido barbitúrico (composto orgânico) capazes de se ligar de maneira covalente, alcançando a estabilidade na enzima parasita. Compostos estes, porém, alerta a professora, que ainda não equivalem a medicamentos; representam um ponto de partida para o desenvolvimento de novas moléculas que, no futuro, poderão ser utilizadas para tratamentos mais eficazes, seletivos e seguros contra a leishmaniose.
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