Em entrevista ao Informativo Plataforma de Pesquisa Clínica em Doença de Chagas, a doutora Carolina Borsoi, professora do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), explica porque a alta variabilidade genética do Trypanosoma cruzi exige o desenvolvimento de modelos de pesquisa mais precisos e o fortalecimento da colaboração multidisciplinar e dos investimentos na área. Borsoi destaca o potencial de novos modelos experimentais e a descoberta de compostos com atividade esterilizante, que despontam como alternativas mais seguras aos tratamentos atualmente disponíveis.

Quais são, hoje, os principais desafios para compreender melhor o T. cruzi e desenvolver ferramentas mais eficazes contra a doença de Chagas?
Apesar de todos os esforços e pesquisas importantes na biologia e na genética da T. cruzi, ainda não compreendemos de forma adequada quais são os fatores genéticos e fenotípicos do parasita determinantes para a evolução da doença de Chagas. Também sabemos muito pouco sobre como as características genéticas das pessoas afetadas influenciam essa evolução. São necessários investimentos contínuos em pesquisa nessas áreas,e o avanço do conhecimento passa pelo desenvolvimento de novos modelos in vitro e in vivo que possam simular melhor as complexidades e nuances da doença de Chagas, além do desenvolvimento de mais estudos de pesquisa básica em pacientes que vivem com a doença.
Como a variabilidade do parasita afeta o desenvolvimento de medicamentos e a compreensão da evolução clínica da doença?
A variabilidade e a capacidade de adaptação genética do T. cruzi dificultam a pesquisa e o desenvolvimento de inovações justamente porque, potencialmente, aumentam a complexidade e, portanto, a quantidade de parâmetros e fatores que precisam ser estudados para o desenvolvimento de novos medicamentos e biomarcadores da doença de Chagas. Por exemplo, a validação de novos alvos terapêuticos, que é uma etapa essencial do desenvolvimento de novos fármacos, pode ser dificultada pela quantidade de variações na sequência do DNA presentes no alvo em diferentes populações do parasita. Dessa forma, as estratégias de desenvolvimento de novos medicamentos para a doença de Chagas devem incluir estudos de eficácia em diferentes modelos da doença que considerem a variabilidade genética do T. cruzi. Da mesma forma, nosso conhecimento da relação entre a genética do parasita e a evolução clínica da doença ainda é limitado, e modelos experimentais de laboratório vêm auxiliando na compreensão desses aspectos.
Durante muitos anos, a doença de Chagas recebeu investimento limitado em pesquisa e desenvolvimento. Há hoje mais interesse, colaboração ou novas abordagens impulsionando a área?
A pesquisa em novos medicamentos para doenças negligenciadas teve um incremento de interesses e investimentos nos anos 2000-2010, com muitas iniciativas de destaque. Hoje, na verdade, temos uma situação em que ainda há investimentos, porém eles estão mais pulverizados e apresentam um cenário de maior competitividade internacional por fontes de financiamento. Essa realidade favorece as pesquisas colaborativas.
Quais avanços recentes na pesquisa sobre doença de Chagas você considera mais promissores?
A área teve um progresso considerável nos últimos 15 anos, com o desenvolvimento de modelos experimentais mais relevantes do ponto de vista fisiopatológico, tanto in vitro quanto in vivo, que possibilitaram avanços no conhecimento sobre a biologia básica do T. cruzi e no desenvolvimento de novos medicamentos e biomarcadores da doença de Chagas.
Considero muito promissora a descoberta de novos fármacos com atividade esterilizante, capaz de eliminar o parasita do organismo hospedeiro em modelos experimentais, bem como mecanismos de ação inéditos, que têm se mostrado mais seguros do que as opções terapêuticas existentes.
Construir redes de colaboração é essencial. Você poderia compartilhar exemplos de como o trabalho colaborativo tem impulsionado descobertas ou fortalecido capacidades científicas na área?
A busca por soluções de saúde, em particular o desenvolvimento de novos medicamentos, demanda esforços de diferentes especialidades e, portanto, é essencial ter uma abordagem multidisciplinar e colaborativa, sobretudo em um cenário de financiamento limitado. Ao mesmo tempo, as redes de colaboração multidisciplinares contribuem significativamente com a formação de recursos humanos qualificados, o que é muito gratificante. Essa é uma das missões da academia. Nesse sentido, destaco os consórcios coordenados pela DNDi que se dedicam à descoberta e ao desenvolvimento de novos fármacos para doenças negligenciadas, incluindo a doença de Chagas.
Podemos entender, a partir das suas respostas, que podemos ter esperança de que o cenário da doença de Chagas possa realmente mudar nos próximos anos?
Sem dúvida. Os esforços de pesquisa na descoberta e no desenvolvimento de novos fármacos, bem como no desenvolvimento de novos biomarcadores para avaliação da eficácia terapêutica e do progresso da doença, vão afetar positivamente o cenário da doença de Chagas e trazer inovações que geram grandes benefícios para os pacientes.