Os novos regimes substituem tratamentos longos, tóxicos e baseados em injeções por opções mais seguras e simples para essa doença negligenciada.
- Na África Oriental, a nova combinação de tratamento recomendada para a leishmaniose dérmica pós-calazar (LDPK), tem mais de 90% de eficácia, reduz as injeções de 34 para 14 e diminui o período de internação de 60-90 dias para 14.
- Na Ásia Meridional, as novas opções para LDPK reduzem a dependência de tratamentos longos e tóxicos, somando-se aos esforços para a eliminação sustentável da leishmaniose na região.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) atualizou suas diretrizes de tratamento para a leishmaniose, introduzindo um novo regime para leishmaniose visceral (LV/calazar) na África Oriental e para diversas opções mais curtas para leishmaniose dérmica pós-calazar (LDPK) na África Oriental e na Ásia Meridional.
Os novos regimes recomendados para leishmaniose visceral (LV) e leishmaniose dérmica pós-calazar (LDPK) na África Oriental não contêm estibogluconato de sódio (SSG), conhecido por suas injeções dolorosas e toxicidade grave, sendo substituído, pela primeira vez, por um medicamento oral, a miltefosina (MF). No Sul da Ásia, as novas opções de tratamento recomendadas para pessoas com LDPK são agora mais curtas e seguras, com anfotericina B lipossomal (LAmB) ministrada de forma isolada ou em combinação com MF. As diretrizes também fornecem orientações para o manejo da recidiva da LV no Sul da Ásia.
Essas novas terapias recomendadas para LV e LDPK na África Oriental e alguns dos regimes alternativos recomendados para LDPK no Sul da Ásia foram desenvolvidos pela organização sem fins lucrativos de pesquisa médica iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi) e seus parceiros.
“Por muito tempo, os pacientes que sofrem de leishmaniose suportaram tratamentos quase tão severos quanto a própria doença. Essas novas diretrizes da OMS marcam uma virada”, disse Dr. Daniel Ngamije Madandi, diretor de malária e doenças tropicais negligenciadas da OMS. “Ao recomendarmos regimes de tratamento mais seguros, curtos e mais convenientes para os pacientes, não estamos apenas aprimorando o atendimento; estamos acelerando nossa luta para eliminar essa doença devastadora e oferecendo esperança às comunidades da África e da Ásia.”
A leishmaniose visceral (LV), também conhecida como calazar (“febre negra” em hindi), é transmitida pela picada de um flebotomíneo infectado e é uma das doenças parasitárias mais letais do mundo, depois da malária. Ela causa febre alta, perda de peso, anemia, aumento do baço e do fígado e, se não tratada, pode levar a morte. A doença é endêmica em 80 países, com uma estimativa de 50 mil a 90 mil novos casos por ano, dos quais apenas 25% a 45% são notificados à OMS.
A leishmaniose dérmica pós-calazar é uma doença de pele que pode se desenvolver meses após o tratamento bem-sucedido do calazar. Embora não seja fatal, é altamente estigmatizante, e muitas pessoas que vivem com LDPK enfrentam isolamento social e problemas de saúde mental. A leishmaniose dérmica pós-calazar (LDPK) também pode contribuir para a transmissão contínua da leishmaniose visceral (LV) nas comunidades afetadas.
Os novos tratamentos irão melhorar significativamente o padrão de atendimento para pacientes com leishmaniose, antecipando a chegada, nos próximos anos, de opções terapêuticas orais ainda mais inovadoras e convenientes para os pacientes, atualmente em desenvolvimento. Isso inclui o LXE408, um novo candidato oral para leishmaniose que a DNDi está desenvolvendo em conjunto com a Novartis.
“Estamos muito satisfeitos com a inclusão desses tratamentos, desenvolvidos com nossos parceiros, nas diretrizes da OMS”, disse Dra. Fabiana Alves, diretora do área de leishmaniose e micetoma da DNDi. “Esses avanços são passos importantes rumo à eliminação, mas já estamos olhando para o futuro. Atualmente, estamos trabalhando com a Novartis e parceiros no desenvolvimento do LXE408, um novo candidato oral promissor que poderá, em breve, nos ajudar a finalmente abandonar os regimes injetáveis.”
Diretrizes para a África Oriental: LV e LDPK
A África Oriental agora concentra a maior parte dos casos de calazar, representando 79% do total registrado em 2024. Metade desses casos são em crianças menores de 15 anos.
O novo tratamento para calazar, desenvolvido por meio de ensaios clínicos na Etiópia, Quênia, Sudão e Uganda, combina MF oral com o antibiótico injetável paromomicina (PM). O regime MF+PM demonstrou eficácia superior a 90% e reduz o tratamento de 34 injeções dolorosas ao longo de 17 dias para 14 injeções ao longo de 14 dias (20 injeções a menos), ou seja, uma injeção por dia, juntamente com o MF oral. Além disso, o regime MF+PM ajuda a diminuir o risco de desenvolvimento de LDPK.
As combinações MF+PM e LAmB-MF também foram avaliadas contra LDPK em um estudo realizado no Sudão. No Sudão, quase 20% dos ex-pacientes com calazar acabam desenvolvendo LDPK, é a maior taxa do mundo.
O ensaio clínico demonstrou que a combinação MF+PM apresentou uma taxa de cura muito alta contra LDPK. Este novo tratamento oferece vantagens significativas, incluindo um período de hospitalização muito mais curto: 14 dias, em comparação com os 60 a 90 dias necessários para o tratamento atual baseado em injeções de SSG.
Após 14 dias, os pacientes completam o tratamento com MF por via oral em casa por mais 28 dias, aliviando substancialmente o fardo sobre as famílias e os serviços de saúde. Devido ao risco para o desenvolvimento fetal associado a MF, mulheres em idade fértil precisarão apresentar um teste de gravidez negativo e utilizar métodos contraceptivos para receber este novo tratamento; caso contrário, continuarão recebendo o tratamento padrão atual.
“Os novos regimes oferecem vantagens significativas para os pacientes”, afirmou o Prof. Ahmed Musa, Ministro do Ensino Superior e da Pesquisa Científica do Sudão e ex-pesquisador sênior do estudo no Instituto de Doenças Endêmicas da Universidade de Cartum. “Hospitalizações mais curtas significam que os pacientes com LDPK não precisam mais passar semanas longe de casa.” A redução do número de injeções dolorosas e tóxicas, e sua substituição por um componente oral, tornou o tratamento não apenas mais fácil, mas também mais seguro para os pacientes.
Diretrizes para o Sul da Ásia: PKDL
No Sul da Ásia, a PKDL continua sendo um grande desafio de saúde pública, ocorrendo em cerca de 5 a 15% dos pacientes tratados para LV. A persistência da PKDL é reconhecida como um dos principais riscos para a manutenção dos avanços dos programas de eliminação da (LV) na Índia, Bangladesh e Nepal.
O tratamento atual da PKDL baseia-se na administração prolongada de MF) (12 semanas). No entanto, o uso prolongado desse medicamento tem sido associado à baixa adesão e a riscos como toxicidade ocular, razão pela qual alternativas são urgentemente necessárias.
As novas opções recomendadas pela OMS limitam a exposição ao MF, seja pelo uso isolado de anfotericina B lipossomal (LAmB) ou em combinação com um curso curto e de duração limitada de MF, que seja eficaz e reduza as preocupações com toxicidade.
“Em um estudo realizado em Bihar, vimos em primeira mão como regimes de tratamento aprimorados para PKDL podem transformar os resultados para os pacientes. A transição para terapias mais seguras, mais curtas e combinadas é um grande passo adiante. Isso reduz as preocupações com toxicidade, melhora a adesão ao tratamento e, em última análise, fortalece nossos esforços para eliminar a leishmaniose visceral ao abordar a leishmaniose dérmica pós-calazar como um reservatório chave da infecção”, disse o Shyam Sundar, professor de medicina do Instituto de Ciências Médicas da Universidade Hindu de Banaras e diretor do programa no Centro de pesquisa Médica sobre Leishmaniose, na Índia.
Após a decisão da OMS de incluir os novos tratamentos em suas diretrizes, espera-se que os países afetados pela LV e pela LDPK os incorporem em seus próprios protocolos nacionais de tratamento em breve.
“Agora que a OMS atualizou suas diretrizes de tratamento, também estamos trabalhando para incluir os novos tratamentos em nossas diretrizes nacionais, para que nossos pacientes possam se beneficiar deles o mais rápido possível”, disse Wyckliff Omondi, chefe da Divisão de Doenças Tropicais Negligenciadas e Transmitidas por Vetores do Ministério da Saúde do Quênia. “O Quênia tem sido um parceiro ativo no desenvolvimento desses novos tratamentos por meio da Plataforma de Leishmaniose da África Oriental (LEAP), e temos esperança de que todos os nossos esforços conjuntos levem à eliminação dessa terrível doença.”
O apoio financeiro para os estudos da DNDi sobre LV e LDPK foi fornecido por diversos financiadores, incluindo o programa da Associação de Parceria de Ensaios Clínicos entre Países Europeus e em Desenvolvimento (EDCTP2), apoiado pela União Europeia; o Ministério das Relações Exteriores da Holanda (DGIS); a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD); o Ministério Federal da Educação e Pesquisa (BMBF) por meio do KfW; Médicos Sem Fronteiras Suíça; Médicos Sem Fronteiras Internacional; Fundação Medicor; a Agência Suíça para o Desenvolvimento e a Cooperação (SDC); o UK International Development; o Conselho de Pesquisa Médica do Reino Unido; a Organização Mundial da Saúde – Programa Especial de Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (OMS-TDR); e outras pessoas físicas e fundações privadas.
Leia o comunicado de imprensa oficial da OMS.