Encontro é parte da iniciativa Open Chagas, da DNDi, que busca fortalecer a colaboração regional em pesquisa e descoberta de medicamentos para a doença
Dezenove cientistas do Brasil e de outros países da América Latina se reuniram em São Paulo, entre os dias 19 e 21 de maio, para um treinamento conjunto em drug discovery voltado à doença de Chagas. Os participantes tiveram seus projetos selecionados por meio da chamada do Open Chagas, uma plataforma de inovação aberta liderada pela iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi), que busca acelerar a identificação de candidatos a fármacos por meio da colaboração científica regional, do intercâmbio de conhecimento e do fortalecimento de capacidades.

Durante os três dias de atividades, os pesquisadores participaram de uma programação na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com foco em interações técnicas, capacitação científica e construção de redes de colaboração. O treinamento abordou as principais etapas do desenvolvimento de novos medicamentos. A programação incluiu ainda triagem em larga escala de bibliotecas químicas, validação e otimização de compostos promissores, além de testes in vitro e in vivo de farmacocinética, e uma sessão voltada para a parasitologia e modelos da doença.
A programação também incluiu visitas técnicas aos laboratórios de parasitologia e química das duas universidades e exercícios práticos sobre o avanço de compostos ao longo do pipeline de pesquisa e desenvolvimento. “Este workshop foi pensado para reunir pesquisadores com diferentes expertises e perspectivas para promover troca de conhecimento, construção de novas parcerias e ampliação da capacidade de drug discovery em regiões endêmicas da América Latina. Nosso objetivo é que esse encontro gere novas ideias, conexões duradouras e impulso para transformar pesquisa em soluções eficazes para os pacientes”, explicou Luiza Cruz, gerente de drug discovery da DNDi.

Tratamentos atuais ainda apresentam limitações
Os tratamentos atualmente disponíveis para a doença de Chagas, com o uso de benznidazol ou nifurtimox, apresentam limitações importantes. Apesar de serem capazes de reduzir a progressão da cardiomiopatia chagásica e terem eficácia comprovada em casos agudos, em crianças e na prevenção da transmissão vertical, muitos pacientes não respondem adequadamente à terapia, e a confirmação da cura parasitológica continua sendo um desafio.
“Os medicamentos disponíveis hoje foram descobertos há mais de 50 anos, e ainda sabemos pouco sobre aspectos farmacocinéticos e farmacodinâmicos desses compostos”, reforçou Maria Jesús Pinazo, head de Chagas da DNDi. “Apesar disso, estamos vivendo um momento promissor para a pesquisa em Chagas. Há novas entidades químicas em desenvolvimento, ensaios clínicos em andamento e possibilidades de combinações terapêuticas que podem resultar em tratamentos mais seguros, eficazes e toleráveis para os pacientes. Precisamos continuar avançando nessas lacunas. Os pacientes estão esperando por isso.”
Próximos passos
O treinamento faz parte da segunda fase do projeto Open Chagas, iniciado em 2024. A próxima etapa prevê a continuação do suporte oferecido pela DNDi para a geração de dados sem custo e apoio na progressão dos projetos. “A consolidação dessas colaborações se dará de acordo com o progresso dos projetos e com interesse e alinhamento entre as partes”, diz Luiza. A expectativa é apoiar a formação de uma rede regional ativa de colaboração científica, capaz de compartilhar conhecimento e gerar novos dados sobre a doença.